Na margens da vida (conto)

Conectou os fones no celular e sintonizou uma rádio online, dessas que não possuem intervalo. Estranhamente bem disposta e atrasada, soltou os longos cabelos e colocou o capacete. Olhou seu reflexo no retrovisor da moto e se orgulhou da pouca maquiagem que usava, já estava tarde, eram nove da manhã de um domingo. Sem mochila, em poucos minutos estava na estrada principal que a levaria à faculdade. Ela pretendia ir à faculdade, em um domingo.

Nos fones, um homem de voz mansa cantava: “me larguei, dormi, nas margens de mim.” Margens de mim...” Isso soou tão filosófico. “O que seria a minha margem?” ela se perguntava sem pressa pra resposta. Ela se chamava Ravena, esse foi o nome de uma das capitais do Império Romano onde Carlos Magno costumava descansar, mas longe de ser uma calmaria a menina Ravena compartilhava da mesma inquietude. 

Em menos de cinco minutos Ravena saiu da estrada principal, incrivelmente deserta e entrou numa rua estreita feita de bloquetes, com pouco verde, desceu rapidamente e bateu na porta da casa de Paulo. Ele era seu grande amigo, tinha a mesma idade que ela, vinte e cinco anos. Costumava ser atencioso, um homem mais vivido, mais experiente e um tanto desconfiado. Ravena já havia batido três vezes na porta e nada. Quando Paulo apareceu, diminuiu sua visão por causa do sol que batia nos olhos castanhos. Já virando as costas pra retomar o caminho Ravena falou: “Vamos Paulo, está na hora.”“Hora de que?” – perguntou inclinando o queixo. “São nove e quinze da manha!” “Estamos atrasados!”  – Falou ela com a indignação de uma criança.

Normalmente era difícil convencer Paulo, mas ultimamente ele estava sendo menos duro com ela.
Ele entrou e saiu rapidamente, já usando outras roupas.“Pra quê essas mangas longas? Hoje o sol está tão bonzinho!”  "Prevenção!"  – respondeu ele. Ela nem ouviu. Já na moto, Ravena olhou pelo retrovisor e disse: “Você parece triste!” “ Só tô com sono.”  – Disse ele desviando o olhar do dela.
“Você não me engana. Fiquei sabendo tu terminou com teu grande amor!" – falou com deboche por ele não ter respondido como ela queria. “Não seja dramática!” E continuou, desviando o assunto para ela. Você tem uma queda pelo eterno, deve ter aprendido isso na sua época de Igreja, você confunde o eterno pregado lá com os contos de fada. Mas no fim é isso, a gente não sabe quem veio de quem.” Eles riram.

“Também ando um pouco doente”  – disse Paulo como quem responde quanto é dois mais dois.
Você já sabe quando irá morrer?  – Perguntou Ravena com um sorriso no canto da boca.
“Não.” – Respondeu gesticulando com a cabeça.
"Pois estamos na mesma!"  – Os dois riram alto.

Pouco tempo na estrada e já era a terceira vez que a música se repetia. Mas ela estava mais intrigada do que aborrecida, olhando fixamente a estrada ela perguntou: “Paulo, o que é margem de você?”
“O que? Você está louca?” “Ah deixa...”  – Mas continuou a falar  – “Antes de passar na tua casa, me olhei no espelho e não entendi porque algumas pessoas falam do meu olhar, a única coisa que eu gosto é o fato dele ser natural. Gente que tenta aparecer cai no esquecimento ou na antipatia, não acha?” Paulo prestava atenção na estrada, intrigado com os paredões rochosos, de cor laranja avermelhado com mato seco e a estrada deserta. Pensando que o caminho da faculdade estava muito diferente, quando ele foi interrompido de seus pensamentos bruscamente com a freiada que Ravena deu, fazendo os dois inclinarem seus corpos pra frente e por pouco não caindo. Ravena sorria aliviada. Ela havia desviado de um buraco raso de lama.

“Precisava disso tudo?"  – perguntou Paulo ainda se acalmando do susto.
“Às vezes sabemos diversas formas de nadar, mas insistimos em flutuar ou afundar."  – respondeu calmamente voltando sua atenção na estrada.
“O que tem a ver?”  – ele perguntou inquieto
"O caminho que você está acostumado a fazer pode ser mais traumático que o desvio."
“Tá inspirada ein”?!  – Perguntou afirmando com uma ironia maternal.

Ela voltou ao caminho num ritmo mais devagar. “As margens de mim é onde eu permito que as pessoas andem sem medo, onde parece seguro, onde é disponível.”
“Já vai começar com essa história de novo?”
“Sim.”  – Ela respondeu como quem diz “presente” na aula.
“ Veja Paulo..."
“Olha Ravena, o que eu tô vendo não faz sentido! Onde estamos?"
“Ouça Paulo...”
“E se isso é a margem, logo eu tenho um profundo! E a margem é o escudo que protege isso.”
“Como assim Ravena”?  –Perguntou Paulo para se convencer de que algo estava errado.
“Se a minha margem é fácil, o meu intimo é feito de detalhes. A margem é um texto informativo enquanto meu intimo está na entrelinhas, é um filete de rio guardado por esse mar revoltado, entende?"
“Muito! Não precisava dessa aula toda.”

Ela riu e ele permaneceu calado, nem um pouco confortável com conteúdo da conversa. Ravena saiu novamente da estrada e foi diminuindo a velocidade. Paulo jurava que tinha visto tudo reto, mas logo depois de uma curva estavam numa estradinha de chão bem convidativa.
“Você vai parar?”
“Não, não! Estou indo devagar para admirar a natureza!” – Respondeu com ironia.
“O quê?”
“Claro que vamos parar!”
“Por quê?”
"Hora do Happy Hour querido!"
"Happy hour essa hora do dia? Você está louca!"
Ela o olhou com o olhar de um professor ao perceber que seu aluno entendeu o conteúdo, e disse:
“Sempre fui.”
Paulo nunca tinha visto aquele lugar, enquanto ela parecia bem familiarizada.
“Quem chamou?
“Ninguém. Quem melhor que eu e você?”
“Às vezes Paulo, tenho a impressão que somos a mesma pessoa.”
“Mais essa!”  – Pensou ele.

Era uma casa abandonada, úmida, com um telhado precário. Ela sentou num pequeno degrau na varanda da casa, e começou a beber o resto que havia em uma garrafa abandonada. Paulo a olhava com o mesmo olhar de quem visita o hospício pela primeira vez. Ela falava calmamente:
“Sente- se, beba comigo!”
“Eu vou voltar Ravena!”
“Por acaso você sabe onde está?”
"Não, mas o caminho de volta é bem fácil.
“Paulo, quantas vezes você tentou voltar e não conseguiu, ou pior, quantas vezes você só queria algo novo? Você está num desses caminhos!"
“Você nem sabe o que está bebendo!”
“Estou bebendo o que me ofereceram!”
"Quem te ofereceu?
"A vida. Aliás, um brinde a ela!" –Ela o irritava de propósito.

Paulo a olhou querendo enforcá-la.“A vida nos oferece coisas o tempo todo, agir com a sua margem ou seu intimo é o que definirá quais serão essas coisas"  – comentou calma.
Paulo não queria concordar com uma pessoa alterada, mas fazia sentido.
“Que horas são menina?”
“Não sei, o celular descarregou.”  – respondeu com o ar profundamente triste.
 "Não estamos atrasados?"   
“Estamos atrasados em relação a muita coisa, mas existem lugares que necessitam de hora pra chegar e coisas que são para todas as horas, mais uma vez é você quem decide.”

Paulo sentou-se procurando uma maneira de resolver aquilo tudo, perguntava-se como tinha dado ouvidos à Ravena novamente.“Será a fidelidade algo nato do amor? Será o amor uma invenção? Paulo, o amor ainda existe?” Paulo olhou pra ela e a garrafa e disse irritado: “Porra! Você está falando de amor!? Beba mais! Porque esse ai tá difícil! Ravena, volte a discutir as lutas de classe, elas não te levarão a lugar algum mas ao menos te darão um pouco mais de conteúdo!"
“Lugar nenhum nós já estamos!”  – Retrucou.

Paulo levantou, puxou ela pela blusa com firmeza e disse: “Vamos!”
Ela foi cantarolando baixinho Infinita Highway, pra irritá-lo. O que fez o pobrezinho pensar em suicídio. Mas ela não parou por aí.
“Sabe Heráclito...”                  
“Heráclito?”- Paulo perguntou, enquanto a olhava assustado.
"Sim, o filósofo!"
“Mas eu sou Paulo!”
"E quem disse que eu to falando com você?"
“Deus, ela chegou ao auge!”  – Murmurou Paulo.
"Heráclito, eu não concordo contigo. Alguma coisa nessa vida tem que ser imutável cara! A minha essência não pode ser a mudança. E deve haver um refúgio, um rio em que eu possa mergulhar e ser a mesma. Um backup, entende? Porque às vezes, fluir é apenas um sentimento utópico,  têm horas que as coisas param. Esse backup é o intimo."

Paulo concordou em pensamento, realmente fez sentido.“O amor é o mais intimo de nós Paulo...”
Eles já estavam na estrada e a temperatura continuava agradável e propicia pra Ravena não se calar um minuto. Ela andava incrivelmente mais rápido agora. Ele nem se importava com o fato do pôr-do-sol, nem com a fome, calava em seu cansaço. Paulo retornou de um cochilo quando ela voltou a diminuir a velocidade.
“Por que está indo pelo acostamento?”
“Porque quero te explicar de forma didática.”
"O quê?"
"Veja a estrada, ela é como nós..."
"Com seus acostamentos, placas de 'pare', desvios. Mas nós sempre levamos quem está disposto a nos conhecer para lugares incríveis."
“Qual teu intimo Ravena”?
Ela pareceu assustada e ao mesmo tempo feliz com a pergunta. “Sensibilidade”  – Respondeu sem dúvida. E ele seguiu com muita convicção: “Eu sempre fui o contrário de você.” “Eu sei. Por isso preciso de você de vez em quando.” Ela saiu, da margem e entrou fazendo zigue-zague na estrada, por causa do vento que abafava sua voz ela começou a gritar. “Você não sabe de nada! Há coisas que precisam se estender a muitas somas e vezes! Você precisa quebrar a cara! Precisa repetir para si mesmo, você realmente tá doente! Doente pela antecipação do sofrimento! Mas você não vai me contaminar!”

Ela falava virando pra ele sem prestar muita atenção na estrada e com os olhos lacrimosos, por vezes fixos no peito dele. Ele agarrava forte na cintura dela por causa da velocidade, o vento estava machucando seus olhos e as gotas da chuva que começava, caiam como pedra enquanto ela parecia não se importar. “Eu prefiro morrer a ter a sua vida!” – Disse ela compenetrada.“Você precisa morrer?” Ela gritou: “Claro que não!”

Ela soltou uma das mãos na tentativa de tirar algo do bolso, mas não teve tempo suficiente. Quando voltou seu olhar para a estrada, ela segurou forte a embreagem para desviar de uma cobra que atravessa a pista. Isso fez com que a moto deslizasse na pista molhada e ela perdesse o controle. Eles se chocaram nas árvores da encosta.

***
“Mantenha a calma senhor.”  – Dizia uma voz treinada.
“O que aconteceu?”  – Perguntou a atendente do serviço de urgência.
“Um acidente.”
“Onde senhor? Quantas pessoas?”
O caminhoneiro trêmulo, parado, olhando fixamente disse:
“Uma mulher, sozinha em uma moto.”
“A localização senhor?”

Depois de recolherem o corpo o senhor que ligou para a ambulância se viu sozinho na estrada, ele avistou um papel se desfazendo pela chuva. O mesmo que Ravena tentou tirar do bolso para que Paulo pudesse ler em voz alta pra ela. Com as letras sumindo em meio a umidade e os borrões da tinta azul da caneta que ela tinha usado, o senhor leu:

 "Apesar meu amigo Paulo, apesar de sermos a mesma pessoa, você vem vivendo como a margem de mim. Você, é minha razão. E eu o sentimento. Uma pessoa separada entre seus medos e seus amores se torna muito vulnerável. Então eu carrego essa carta, pra eu me dizer, uma lista, de como me comportar e no que acreditar. Esse tempo todo eu só queria que alguém me guiasse no caminho que eu construí. Porque na verdade, não procuro alguém que me ame, nem alguém que me entenda, eu só preciso de alguém que me inspire."
                                                                             ***

Ravena acordou suada, coração prestes a sair, olhos super arregalados. Olhou pra cama, pegou o celular, checou a data, era segunda-feira. Enquanto sintonizava a rádio local com locutor e comerciais, o chiado preenchia a vida simples, bonita e real.


Foto: Daniel Sena


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